Manuela Rodrigues

PORTUGAL- PARTE I – WE ARE THE WORLD

voyage

Minutos antes de passar o portão de embarque recebi da minha amiga Vica um bilhetinho, daqueles escritos como antigamente em papel de carta. Nesse tinha coelhinhos estampados e vinha escrita a seguinte frase conhecida por todos nós: WE ARE THE WORLD (Não entendi muito a relação dos coelhos e a frase, mas tudo bem). Vica ainda escreveu de caneta  a tradução – NÓS SOMOS O MUNDO.

Entrei no avião emocionada com o gesto simples e carinhoso e com aquela frase, que me parecia um clichê, reverberando em minha cabeça. Fiquei mergulhando nas interpretações… e eu pensava: Se eu sou o mundo, e isso parece ser tão poderoso e ao mesmo tempo tão libertador, porque eu tinha agora um mundo de coisas na minha cabeça? e …que mundo era esse que eu ia encontrar fora? E se cada cabeça é um mundo, que tipo de mundo eu tinha na minha cabeça e que tipo de mundo tem na cabeça das pessoas que eu iria encontrar?..e que mundo blá blá blá

Eu poderia ficar horas escrevendo sobre a minha viagem reflexiva sobre a frase e quantos trocadilhos fiz com a palavra mundo, mas o fim do texto pode justificar. No fim das contas era a minha intuição gritando VÁ e o meu medo buscando todas as justificativas para NÃO Vá.

Fui.

Vim para um curso de formação ou residência artística camada Voyage Du Geste, onde os artistas participantes são do Líbano, Palestina, Bélgica, França, Portugal, e eu a única do Brasil (pela primeira vez um participante do Brasil). Mergulhamos em 15 dias de intenso trabalho artístico com aulas de canto e cena, música, técnica Alexander, Movimento, Marionetes e o dia parecia correr mais rápido, sem que sobrasse tempo para mais nada.  O mundo real acelerou e não deixou tempo para o mundo virtual (como já disse a sábia Maiana).

Logo no primeiro dia tivemos uma apresentação individual.  Já de cara vi coisas incríveis! Aquelas pessoas, ainda estranhas, de mundos diferentes, alguns carregando seus artefatos artísticos, suas marionetes, todas me pareciam maravilhosas. Chegamos ali como estranhos e a partir de então acordaríamos juntos, tomaríamos café juntos, aulas, almoço, jantar, tudo juntos.

Embora estivéssemos em Portugal não se falava muito português, a língua adotada para a comunicação entre todos era o francês e o inglês, inclusive nas aulas. Aquilo tudo me pareceu instigante, embora o meu inglês estivesse quase péssimo caminhando para pior e o meu francês simplesmente não existisse, mesmo assim as ajudas dos colegas com traduções nas aulas foram surgindo, as conversas fora de aula tinha ajuda dos gestos e nos momentos de maior desespero um reza para o santo ajudava.

Mesmo com tudo correndo muito bem, parece que de alguma maneira o meu emocional reclamou, o meu corpo sentiu e deu um jeito de ficar doente. Tive uma gripe fortíssima que me deixou de cama alguns dias, me impediu de ir à praia com todos do grupo e de tomar vinhos durante o jantar por causa dos remédios. Foram dias de castigo sem poder cantar porque fiquei muito rouca, silenciava para mim a minha força de expressão, grande parte do meu mundo não seria revelado (que dramático! mas era assim eu pensava. Hahaha).

Não por acaso meu corpo se fez disponível  e diante do silêncio da voz ele pode se expressar mais livremente e a oficina LABAN- ESPAÇO- TEMPO, com movimentos corporais me levou para um mundo até então desconhecido e amplo, algo simplesmente maravilhoso! ( Fotos no perfil).

Certa hora já não éramos estranhos, já tínhamos rolado no chão, massageado um ao outro, tocado um ao outro, cuidado um do outro (me senti muito cuidada os dias que estive doente), abraçado, beijado um ao outro. Já cantávamos juntos, criávamos canções, fazíamos paródias e coincidência ou não uma das paródias feitas com o nome de um de nossos colegas foi usando que canção? Adivinhe?

Aos poucos a voz foi voltando, as relações foram se estreitando e formou- se uma rede de afeto, de admiração, todos pareciam lindos e bons, sem brigas iguais aos Reality shows. ( não sei se com mais 15 dias aguentaríamos…risos!) . Mas com todas as limitações da língua fiz amigos muito especiais. O olhar e o toque continuam sendo grandes códigos na comunicação e isso, esse mundo virtual, que me dá a possibilidade de me comunicar com vocês agora, não pode oferecer.

Ontem foi o último dia e, sem banda, com o teclado que devia ter três oitavas e meia, sem pedal para sustentar os graves, fiz uma das apresentações mais emocionantes da minha vida, pela simplicidade. Cantei 4 músicas para os meus novos amigos. Aqueles artistas incríveis depois de terem comprado cds, e que sua maioria não falam português, entraram  na minha “viagem” de doido,  no meu “mundo” e cantaram em coro EU PROFISSIONAL LIBERAL .  Pra quem conhece… com aquela modulação do final que sai do acorde de  A até C.

Naquele instante não podia ser melhor estar no mundo e ser o mundo.  Porque pessoas são pessoas em todo lugar no mundo.

Chorei ontem! Choramos todos hoje na despedida.

 

 

19|10|2011

3 Comentarios

  1. ellen disse:

    Obrigada por dividir tudo isso com a gente, Manu. Também me emocionei e chorei aqui, lendo.

    Mande um beijo pra Portugal por mim.

    E mais um pra vc.

    :*

  2. Neila Alcântara disse:

    Manú, hoje tava aqui fazendo meus garimpos e, como quem não quer nada, aportei em você..
    Me deliciei, matei a saudade das musicas antigas e pude apreciar as novas canções!
    Fiquei aqui lendo cada palavra, sentindo cada um desses possíveis mundos…e as experiencias descritas pelo curso.!
    Parabens pelo trabalho, pelas novas conquistas e pelo novo mundo para o qual escolhe abrir-se!

    bjos

  3. Jú Lourenço disse:

    Manuela só tenho que agradecer a Deus pela oportunidade de poder dizer que você faz parte da minha história,pois aprendi muito com você!!!E fiquei muito feliz por todas as tuas conquistas,e sei que Deus te dará muito mais do que você possa imaginar,pois tu és guerreira.Te desejo muito mais sucesso!!!!!Bjus.

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